A palavra usada pelos abatedores: atualizado. Eles haviam conseguido, afinal! O uso da forma gramatical da Língua Portuguesa seria substituído.
Alegaram que nos dias de atuais, com tanto a ser feito em tão pouco tempo, não havia razão para continuar a seguir tantas regras, que pouco modificavam a conclusão de um objetivo final. Também não era mais necessário o uso de vogais. Havia entendimento mesmo que estas não se fizessem presentes. Só eram necessárias em poucos casos.
Regras passariam a ser exceções. Não que já não o estivessem fazendo, mas agora aquilo tudo seria oficial. Estavam enfim, matando a senhora Língua Portuguesa. Nem ao menos tiveram a decência de fazê-lo de uma vez: torturaram-na aos poucos, dia após dia, arrancando pedacinhos aqui e ali.
Fui até a sacada e acendi o meu cigarro. Era desgosto demais. Como puderam? Como pude? Sim, porque de alguma forma, eu também tive culpa no cartório. Quando o fiz?
Homem burro! Estúpido! Inútil. Inútil e insignificante. Ela caminhava para a morte e eu nada podia fazer.
Hipócritas. Daqui a poucas horas dariam fim, de uma vez por todas, em todo o romantismo do idioma. Não haveria mais poetas. Os que realmente o fossem jamais se deixariam depreciar de tal forma. Onde estavam todos eles afinal? Onde se meteram que não faziam nada para impedir tamanha crueldade? Onde estou eu que não o faço neste exato momento?
Covardes. Fracos. Fingidos. Todos nós.
Não ficaria ali vendo-a ser deturpada mais uma vez. Não ficaria olhando com cara de pena, como fiz quando despejaram a dona Maria de sua casa por não estar em dia com o pagamento. Não iria deixar que aquela dor no estômago me fizesse ficar parado de olhos aberto, feito um cachorro velho.
Já estava decidido; iria antes. Nada mais teria importância sem ele. Nada seria o mesmo sem ela. Haveriam sim aqueles que a preservariam, assim como fizeram com o latim e outras línguas mais. Mas não será o mesmo. Há muito já não vem sendo.
Adiantaria se eu implorasse? Será que mesmo assim eles a matariam? Ele ou ela? Os dois, quem sabe? Ele o português. Ela a Língua mãe.
Estava mesmo decidido: eu iria antes dela.
Peguei um pedaço de folha e escrevi rapidamente. Apaguei o restinho de cigarro.
Fui para a sacada e comecei a lembrar. Acho que é assim que fazem os suicidas. Todos eles.
Aliás, tenho certeza. Quantas vezes não me matei dentro de mim? Só não fui assassino. Comparsa também não. Nem o quero ser.
Era meu ultimo ato de amor. Eu sabia, tinha certeza de que traria alguma repercussão. Morreria se isso trouxesse a mais remota chance de que não matassem a minha mãezinha. Morreria de qualquer forma, na verdade. Um cara como eu traria alguma luz a esses excêntricos visionários.
Chega de pensar. Agarro firmemente meu pedaço de papel e vou. Vou porque nada tem mais importância que isso.
Foi fácil morrer. Estranho foi ficar e assistir ao desfecho da morte. Estranho como certas sensações não mudam. A dor no estômago foi dez vezes maior, assim como o sentimento de estupidez.
Doeu ainda mais no enterro, quando só o padre apareceu.
Em meu sepulcro, as últimas palavras que escrevi:
“Vocês, homens hipócritas, tornaram-se tão frígidos quanto as máquinas que possuem. Que possuem ou que os possui? Tão sem tempo, tão sem amor, tão sem sentimentos...sem vida. Matem-na, vis assassinos! E carreguem nas costas o fardo de ter destruído toda uma era. E se isto lhes vale de alguma coisa, carreguem também o fardo de uma morte em vão.”
A quem interessar saber: mamãe foi poupada. E eu lhes sou grato por isso. Do fundo do meu ser.

6 comentários:
Nossa Bia, às vezes alguns erros de português, e até mesmo essa mudança ortográfica me irritam profundamente... Mas esse cara foi insano, nossa, eu adorei. Parabéns.
Será que estou sendo parcial?! A verdade é que gostei muito desse conto, mesmo mesmo...!
Pobre português! Vamos lamentar mas ninguém nos dará ouvidos... As 'idéias' nunca mais serão as mesmas.
Curti o blog! =]
Beijo!
Regrette:
Que bom que gostou, fico feliz por isso! (aqui entre nós, o cara virou um desiludido). Obrigada por estar seguindo o blog!
Michelle:
Preciso dizer que você é o gás hélio do meu balão? Digamos que essa história de "Beta Alfa" esteja ficando séria, pois valorizo muito a sua opinião! Mais uma vez, obrigada!
Diógenes:
Sim, infelizmente "as'idéias' nunca mais serão as mesmas", mas vamos torcer para que as pessoas mantenham, pelo menos o bom senso não é mesmo? Cabe a cada um de nós a missão de cultivar a língua mãe.
Beijos.
Já fui tão dramático quanto o homem do conto, ainda definho junto a PALAVRA quando ela é deturpada, mesmo sendo tão maltratada ela sobrevive, atravessa eras e ditaduras.
Mas existem certas coisas que não se pode mudar, não sabem o que fazem aqueles que sepulcram a língua, resta-nos tê-la conosco e não deixar que morra, pois ela vive em nós e viverá também depois.
Parabéns pelo conto!
"não sabem o que fazem aqueles que sepulcram a língua".
você tem toda a razão.
Obrigada pelo comentário!
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