Enamorada
Quando o avistei, pareceu-me que as borboletas em meu estômago sempre fizeram parte do meu ser. A transparência que ele sustentava sem sacrifício algum, fazia tributo à beleza de sua aura. Era como se tivéssemos pertencido um ao outro desde sempre.
Não usava de máscaras ou artimanhas, dizia o que lhe vinha nos sentimentos sem pestanejar, por vezes deixando meu coração diminuto de tanta dor. Quando apaixonado não fez rodeios; disse-me logo: “gosto tanto de ti, que o querer mal cabe em mim, escapando sempre que em teus olhos encontram aconchego." E eu, mesmo ainda tão moça, já me encontrava enamorada por aquele rapazola deveras galanteador.
O danado fazia de tudo para me ver enrubescer, deleitando-se a cada façanha bem sucedida, dizendo que a cor de minhas bochechas sempre revelava mais do que eu deixava transparecer. Beijava minhas faces coradas duplicando sua cor, fazendo palpitar meu pulsante coraçãozinho. E assim, eu sempre voltava para casa com mais dele e menos de mim.
Mas numa manhã de outono, encoberta por mais sol do que a estação costuma nos dar, olhou em meus olhos e confessou ter perdido em alguma esquina da vida, os sentimentos que eu durante tanto tempo me empenhara em cultivar.
Segurou-me ambas as mãos e disse-me, cheio de ternura: "pega metade desse nosso amor e guarda, que ele nos fez melhor do que ontem e nos tornará mais fortes para os dias que seguirão."
Foi embora sem deixar qualquer gota de tristeza, sangue ou suplício. Simplesmente foi, partiu de minha vida assim como partira da vida de outras tantas, que inebriadas por sua transparência e simplicidade viam-se enamoradas por um mancebo, cuja única proeza era ser poeta na arte de viver e de amar.

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