Diário de Bordo I - Para um teatro pobre, de Jerzy Grotowski


"Viver não é estar contraído, nem é estar relaxado: é um processo", afirmou Grotowski durante a exposição de seus conceitos quanto à aplicação das escolas de teatro em relação ao relaxamento total de um corpo, a fim de atingir a máxima das técnicas de atuação. 

Em verdade, o método de Grotowski era inteiramente de processos baseados no amadurecimento do ator na integração total de sua mente e atributos corporais em palco, que é local de provocação e confronto, ponto de transgressão onde a troca entre elenco e espectador se dão simultaneamente.

O diretor polonês nos convida, em seu livro "Para um teatro pobre", a retornar ao cerne do teatro, para o que é fundamental em sua essência. Reforça que cada ato é único e que um deve preceder ao outro com disciplina, sem atropelamentos. "Antes de reagir com a voz, deve-se reagir com o corpo"; observar, compreender e controlar seu instrumento de trabalho que nada mais são do que os órgãos, os membros, as articulações enfim, para que este conjunto não falhe quando o âmago do personagem vier se manifestar no recipiente de almas que é o ator, tendo em vista o fato de que "o teatro é um ato biológico e também espiritual." 

Estando-se então diante daquilo que Grotowski denominou de a "espinha dorsal" do teatro, temos a revelação de que é o ator, aquilo do qual o teatro não se desprende. Pode-se fazer teatro sem maquiagem, figurinos, iluminação, cenografia, música, instrumentos, palco, texto. O ator - o verdadeiro ator - exprime sua arte mesmo despido dos recursos e máscaras da vida cotidiana, transcende o teatro sintético, rico em suas imperfeições. É essencial ao teatro pobre que tudo venha do corpo e através dele.

Grotowski também propôs que houvesse uma mudança a respeito do posicionamento dos espectadores diante dos experimentos, no intuito de provocar maior participação do público em suas montagens - esse tipo de montagem continua a ser evidenciado até hoje em apresentações de cias pelo uso do palco como teatro laboratório, onde atores e espectadores formam "elencos" que se integram e aos quais o diretor, de certa forma, dirige; transformando todo o espaço em local de atuação. - Outra espécie de  utilização de espaço que torna o contato entre espectador e ator mais íntimo, é o teatro arena, onde os atores desenvolvem a cena em um palco central, propiciando a sugestão da observação de um ato proibido "como se estivessem em uma arena para touradas ou em uma sala de operações"; esse tipo de cenografia foi concebida  na montagem de O Príncipe constante.

A direção que o Teatro Laboratório seguia em suas pesquisas, fazia referência à Stanislavski e seus métodos, mesmo que por diversas vezes as respostas às questões levantadas fossem opostas ao que propunham os resultados obtidos por Stanislavski. Na formação de seus atores, Grotowski trabalhava com a "erradicação de bloqueios", onde impulso interior e ação exterior agiam em conjunto, abdicando da busca por resultados ao trabalhar em prol destes, pois fazê-lo implicaria no comprometimento do processo criativo natural, resultando num conjunto de soluções clichês. No entanto, essa composição artificial, segundo o diretor polonês, não limitaria o espiritual, muito pelo contrário; os conduziria a ele. Sendo assim, a utilização de signos como unidade elementar de expressão age "como uma isca, à qual o processo espiritual responde espontaneamente e contra a qual ele se debate". Por intermédio desses signos então, dispõe-se a ação motivada - ou seja, dotada de sentido -, ligada diretamente ao nosso conhecimento empírico, às nossas experiências de vida, assim como são os gestos que praticamos.

O teatro pobre de Gerzy Grotowski é um grande e intrigante paradoxo. É um conjunto de métodos que trabalha diretamente com antíteses, e que por isso exige de nós, estudantes de teatro, atenção redobrada na interpretação e aplicação de seus métodos. Eu não sei se minha análise está inteiramente correta, se aqui eu expus tudo o que pretendia dizer. Esta dissertação está sujeita à mudanças futuras, uma vez que todo e qualquer contato artístico torna a aprendizagem constante.

Nenhum comentário: