(não) Há tempo


Acordei num pulo, ao notar que ele me encarava com seus olhos vermelhos e aspecto pálido, ao mesmo tempo em que balançava seu relógio de bolso e gritava desesperadamente que não havia tempo, fazendo-me correr e cair com um desespero ainda maior: eu caía para longe, para cima e para dentro de mim - como se uma coisa dessas fosse possível.

E depois, ao cair para baixo, percebi que finalmente havia aterrissado em mim. Não sei se por fraqueza como tanto dizem aqui e ali, mas continuo no chão e deixo-me explorar aos poucos, reencontrar-me...Ler-me com gotas de fel e pitadas de desfastio, a espera do dia que, embora pareça mais um em comum, é um marco - como tantos outros, no entanto. 

O rosto arde maltratado, por conta dos tombos e surras da vida, enquanto a terra seca penetra nos poros, tornando a ferida ainda mais profunda. Existir é assim, diz uma voz sonora e distante. E quem sou eu para contestar, penso logo. Mas discordo internamente, enquanto o formigar compassado das glândulas se transforma em latejar e depois em dor novamente. Mas existe algo ali, bem dentro de mim que é irresistível. Teimosa, permaneço com a cara no chão, sentindo o cheiro das memórias que pareciam migrar pelos espaços da minha mente.

Avisto uma de aspecto vetusto, mas não irreconhecível. Descrente vou até ela, quase correndo por medo de que desapareça. Faço-a parar e pergunto:
- Para onde você vai? 
- Você é uma memória nova? - pergunta-me ela cheia de afeto. Faço que sim com a cabeça.
- Pois bem, que sorte a sua. Estou indo para um canto mais obscuro do cérebro, para assim, abrir espaço para novas lembranças, como você. Estou indo para o 'asilo' - disse-me ela piscando com um olho só. Abracei-a com força, lembrando da falta que me fazia tê-la por perto, e deixei que partisse a caminho da velhice, permitindo que o corpo voltasse ao chão novamente.

Senti que o tempo me escapava com gosto e com vontade, enquanto o futuro cismava em me pregar peças maldosas, sabe-se lá por quê. Doía, e chovia salgado. E ardia. Viver de passado é assim, disse-me a voz sonora outra vez. Seria isso verdade? Coloquei-me de pé, ignorando a dor em ambos os joelhos cortados. Pare com isso, não há tempo, disse-me outra vez a voz. Ponha-se no seu lugar e volte. 

Procurei em minha mente as melhores lembranças do meu mundo. As conquistas, as alegrias, o amor, o sucesso, o aprendizado, a fé e tudo o que de bom grado, compartilhei. Neste momento, a terra do chão se ergueu, fazendo calar-se a voz, tamanho foi o poder das lembranças que transbordavam de razão. Que mostravam a mim e ninguém mais.

Voltei para casa sozinha, deixando apenas que a voz me colocasse na cama, enquanto esta se desculpava por ser o que era. A vida é cheia de surpresas minha querida. Beijou-me a face em despedida, fechando a porta ao sair.


O dia raiou, selando mais um ciclo. O futuro insistia em sugar-me para frente. 

2 comentários:

Unknown disse...

A vida é cheia de percalços, decepções e felicidades de vez em quando.

Hoje é dia dos seus anos, além de lhe parabenizar - como bom otimista - deixo meus votos de felicidades para este novo ciclo em tua vida!

Michelle disse...

Texto lindo lindo lindo, tão delicado e profundo...

E o tempo não lhe escapa, porque não lhe pertence, e nem à ninguém. É na verdade seu próprio escravo, condenado em seu próprio ciclo. E o futuro insiste em sugá-lo também.

Parabéns pelo texto, Bia, adorei.