“Portas são acentuações. A da varanda fora o ponto final,
enquanto a do carro de bom grado vestiu-se do parágrafo que viria a seguir.
Entra e se agarra à direção, numa tentativa desesperada de
conter a besta-fera no cerne de sua existência, antes que esta se esvaia e
desgrace ainda mais a sua vida. Ela toda é um urro de desespero. Um grito que
não consegue desatar o maldito nó incrustado em sua garganta.
Dirigiu estrada afora, enquanto do banco do carona, seu maço
de cigarros sabor hortelã lhe fitava os lábios. Quis morrer. A besta lhe arranhava as entranhas. Tentou
mudar o rumo dos pensamentos, mirando reto a estrada que se insinuava a sua
frente. Maldita estrada, porcaria insignificante que foco nenhum exigiu! Era
toda ela mato, mato, mato!
Chega, enfim. Pega o maço de cigarros e um casaco no porta-malas
do carro. Pisa firme e com força, ela toda é adrenalina. E de lá de cima, da
ponta do topo da montanha, deixa-a sair: grita seu urro mais horrendo, estoura
o nó do jeito mais doído.
É pôr-do-sol, fez um dia lindo. Deixa-se beijar pelo sabor
hortelã. Fecha os olhos e sente a ânsia de adormecer num sorvo e não acordar mais.
Abre os olhos e mira-o indo embora. Sente a menção jubilosa do que é fazer
parte de algo supremo e ser apenas formiga.
Adormece no purgatório e desperta no paraíso.”
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