O Acordo (parte I e II)





Ah sim, finalmente, "O Acordo" está completo. Desculpem a demora, faltava-me disposição e principalmente, inspiração para finalizar este conto. Espero que gostem. Boa leitura!





Era noite quando nos vimos pela primeira vez. Noite de quarta-feira, para ser mais específico. Mal sabia eu que depois daquela noite, muitas outras estariam por vir.
Havia acabado de chegar de uma aula extremamente maçante, e tudo o que eu queria era acalmar meu estômago enquanto assistia àquele horrível programa de televisão. Era tudo o que eu queria e pelo visto, ela não tinha maiores ambições.

O bicho estava encolhido em um canto da sala, mexendo com cautela suas asquerosas anteninhas, esperando que eu apagasse as luzes e fosse dormir.
Senti um calafrio enorme na espinha e logo depois, um espasmo percorreu toda a extensão do meu corpo. Argh! Tinha que ser justamente a droga de uma barata?
    
Encarei o troço, enquanto o bicho retribuía meu olhar; ora de nojo, ora de pavor.
Ela também não parecia nada satisfeita com a possibilidade de uma batalha noturna.
Foi aí que surgiu a ideia que mudaria as nossas vidas de uma vez por todas: fiz vista grossa para a presença do bicho-inseto e segui marchando para o meu quarto.
    
Seria idiotice minha arrumar encrenca com um bicho que sobreviveu às inúmeras transformações do nosso planeta, sem sequer correr o risco de entrar em extinção.
Tranquei-me no quarto, escondendo-me debaixo das cobertas, enquanto lembrava das palavras de meu pai, que indignado com minha fobia, sempre dizia: "Como você pode ter medo de um troço desse tamaninho? Onde já se viu, um homem com medo de barata? É ela quem deve ter medo de você menino!"
    
Acontece meus caros, que o velho se esquecia de dois detalhes cruciais: por ser pequena, a danada conseguia se enfiar em lugares inimagináveis, sem contar que a bicha era dez vezes mais rápida do que eu.
    
A ideia de que ela pudesse invadir meu "forte" quase me convenceu a bater no quarto ao lado, mas o que eu menos queria era ser sacaneado pelos meus pais. Estava cansado demais para qualquer coisa e também, a barata não seria assim tão obtusa a ponto de ir até o meu quarto. A essa altura ela já deveria ter encontrado uma fenda por onde passar e seguido seu caminho.


Na noite seguinte, eis que encontro a bandida assaltando algumas migalhas de pão que haviam ficado sobre o tapete da sala. Logo o meu ritual ‘baratofóbico’ toma partido de meu corpo, dando vazão aos arrepios espasmos, calafrios e todos aqueles outros tiques insuportáveis que eu tenho. Olhei para a barata, resignado, e corri para os meus aposentos. Deitei em minha cama, pensando no quão covarde era, crente de que se a encontrasse no dia seguinte, de certo lhe daria bom dia, por puro temor.

Três noites se passaram sem que eu a visse novamente, embora tenha sofrido todas estas, por vezes fincando meus pés na fachada de casa, sem saber se entrava de uma vez ou se ficava do lado de fora. Mas logo concluí que ela havia enjoado de meu recinto e partido dali, ficando mais tranquilo.

Há dúvidas de que o meu sossego tenha durado pouco? Se existe, hei de aniquilá-las neste momento: na quarta noite, adentrei a sala de estar despreocupado, me esparramando no sofá e adormecendo em poucos instantes. Porém, não foi um sono tranquilo; sentia que minhas costas formigavam de um jeito estranho, assim como as pernas e o antebraço.

O formigamento logo tomou corpo, transformando-se não em uma, mas em inúmeras baratas, que iam de diminutas a gigantescas conforme percorriam a extensão de meu corpo. Não gritava, pois poderiam entrar em minha boca. Também não me movia, por medo de que me atacassem. Fiz-me então de estátua, a espera de que o sonho acabasse ou então que elas finalizassem sua excursão.

Mas o passeio não terminava, tornando-se cada vez  mais íntimo; ora tateavam os ouvidos e nariz, ora o umbigo. Houveram algumas, que mais afoitas resolveram conhecer os estreitos úmidos de minha cidade. Assustei-me, e desesperado remexi-me para que entendessem que ali era um local reservado. Mas de nada adiantou, elas insistiam teimosas, forçando entrada por entre meu jeans mal abotoado. Exasperei-me, e num ato impulsão gritei, sacudindo-me e expulsando-as, só então emergindo de meu sono, constatando por fim, que tudo aquilo era real.

Rolei para o chão dando de cara com meus pais, que me olhavam espantados. Foi quando notei um gosto anormal em minha boca, entendendo logo do que se tratava. Vomitei ali mesmo, praguejando contra aquela barata desprezível, que ao invés de partir dali, trouxera toda uma família consigo, rescindindo sem aviso prévio e por completo o nosso contrato.

Observei os restos mortais daqueles insetos abomináveis, enquanto concluía gloriosamente que não tinha mais medo de baratas.
E foi assim que eu aniquilei dois aborrecimentos com uma dentada só. Existe mais alguém disposto a descumprir meus acordos?
Foi o que pensei.

2 comentários:

Michelle disse...

E finalmente, o desfecho dessa epopéia baratalística.. (rs)

Falando abertamente, quando li pela primeira vez, eu ri.

Daí eu li de novo, e acho que não gostei - baratas despertam minha antipatia...

Mas aí eu li mais uma vez, e fiquei refletindo sobre o que o texto implica.

Eis minha reflexão:

Transformemos as baratas (eca) em problemas. Problemas não são legais, e enfrentá-los é pior ainda. Daí você tenta conviver com eles, e estabelecer um acordo pacifista.

E aí percebe que não lidando com aquele problema, outros vão emergindo, até que de repente você os encontra em toda parte (até nos países úmidos, vejam só! rs). É que um veio trazendo outro, e aí dá nisso.

Resumindo, ou você resolve suas baratas - digo: problemas, ou eles te consomem e invadem lugares inapropriados.

Posso até ter viajado um pouquinho (e qual seria a novidade?...), mas foi o que seu texto me levou a refletir.

Portanto, gosti. Valeu por finalmente ter permitido que nós, meros mortais-leitores, soubéssemos do triste fim de uma barata guerreira de fortes laços afetivos!

Anônimo disse...

Ei, que bela reflexão!! Fico feliz em saber que o conto tenha transmitido uma mensagem tão bonita. Até me inspirei agora sabe...
Muitíssimo obrigada pelo comentário e também por passar-me tão boas energias!