Obstinadamente tenaz



Ei você! Sinto-me na obrigação de lhe avisar que esta narrativa é destinada àqueles que cultivam a constante e velha paciência, assim como uma boa dose detalhismo. Por favor, seja amável com o meu pobre manquitó. Tenho certeza de que você também teve de lidar com algumas amputações ao longo a vida. Boa leitura!

***

Para mim, sempre foi indubitável a convicção de que um ser vivo tem por direito e honra, buscar uma maneira que lhe sirva para ser feliz. Até porque, ninguém é obrigado a carregar toda uma vida de insatisfação. 

Decerto, a vida no campo jamais me fizera feliz; como fosse aleijado de uma asa, não podia acompanhar os demais sem antes passar por grandessíssimas dificuldades e ser desenganado logo em seguida. E tinha também aquela estranha sensação de que eu não pertencia àquele lugar... Era lancinante. Pungia dentro de mim como o pulsar descompassado de quem vive com algum problema grave no coração, e por fim, eu terminava sozinho em algum canto baixo, velando minhas próprias lamúrias.

Eis que em mais uma de minhas manhãs taciturnas, Onofre a gralha, empoleirou-se próximo a mim e inquiriu-me, tomado por uma onda de piedade:

- Ei, amigo duma asa só, dizei tu por que estás deste jeito, assim tão macambúzio!

Olhei-o surpreso por notar que se dirigia a mim e que pretendia dar-me alguma atenção, ao invés de alçar vôo por entre a imensidão azul que se estendia logo acima de nossas cabeças.

- Eis que a resposta para a tua pergunta, querido amigo de duas asas, encontra-se na mesma: com esta minha deficiência não posso mergulhar para cima deste oceano azul como fazes tu, sempre que bem entendes. Minha família se foi, meus colegas me ignoram e fêmea alguma deseja desposar-me como marido!

- Ora, mas isto não é motivo para ficares assim tão meditabundo, a mirar a vastidão que jamais lhe será cedida! Ergue-te pombo, que tu ainda encontras um lugar ao qual pertença a tua alma!

- E como fazê-lo, se tudo o que sei é ser pombo, e ainda pela metade?

- Escuta, meu querido idiota, porque não vais então para a cidade?

- Para que diabos eu iria à cidade?

- Como, para quê? Vais para estabelecer-te com os teus semelhantes. Sim, pois estes, embora sejam dotados de um par de asas, já não fazem mais uso das mesmas. Se tu trilhares caminho até lá, pode ser que te sintas, por fim, em casa.

E mais uma vez, um brilho de esperança instalou-se em meus sentimentos. Afinal, nada poderia dar errado num lugar onde todos viviam como eu. Despedi-me da gralha, decidindo partir naquele mesmo instante. Principiei minha marcha em direção à cidade, otimista por finalmente mudar de ares. O caminho por vezes fora tortuosamente longo, mas mantive-me firme, e venci-o com louvor. 


***

Assim que pus os olhos na tal cidade de Onofre, percebi que esta era um tremendo caos: os humanos corriam de um lado ao outro, repetindo o processo inúmeras vezes, enquanto os que foram apontados como meus semelhantes, misturavam-se àquela balbúrdia descomunal. Fui lançado sem piedade contra a multidão, que mal pareceu aperceber-se de minha presença. Tentei, em vão, bater minha única asa, conseguindo de imediato um pontapé que lançou-me diretamente a um beco escuro e fedido, onde aterrissei em um de meus colegas metropolitanos. Este, julgando estar em seu direito por ter sido insolitamente atacado, pôs-se a ralhar comigo:

- Ei, idiota, não olha por onde andas? Não percebes que estou tentando comer? - ao que eu retruquei sem pensar duas vezes:

- E tu, criatura mal educada, não vês que acabo de chegar à cidade? És mesmo tu um pombo? Mais parece um porco em meio a toda essa imundície!

- Vejam só! O anjo da bucólica terra sagrada desceu para juntar-se à plebe! Mas diga lá amigo, o que foi que o trouxe até aqui? A imensa beleza do campo não lhe foi suficiente ou cansastes da brancura de suas asas?

Ajeitei-me melhor para que ele pudesse ver minha condição, ao que este continuou a esperar por uma resposta. Dei-a então, de má vontade:

- Não posso viver naquela terra, pois não consigo voar, e como não o fazem por aqui, pensei que poderia sobreviver como fazem vocês.

- Ah, mas que beleza, que beleza! Vais adorar a vida que levamos! – disse-me ele, cheio de ironia - Tu só precisas curar-te desta perna ferida, e logo passas a ser um de nós. Agora preciso ir. Boa sorte, meu caro, vais precisar.

Desapareceu em meio à poluição visual e tudo o mais que havia ali, enquanto eu tentava arranjar-me com uma pequena caixa de papelão, onde fiquei por dias a fio, velando a  perna machucada. Tornara-me um manquitó: manco duma perna e aleijado duma asa. Não que isso tenha me desanimado, pois não sou do tipo que se deixa abalar pelos percalços dispostos pela vida.

Assim sendo, por incansáveis vezes, tentei aproximar-me de meus conterrâneos, mas estes, infelizmente haviam sido contaminados pela esterilidade das sensações humanas. Denominei-os então pombos-sem-alma: viviam dias cinzas, seguidos doutro e mais outro, com a única ambição de manter as sobras de vida sem essência que lhes cabia. Não se assustavam com seres duas vezes maiores do que eles próprios, e tampouco se animavam quando acasalavam ou viam suas barrigas cheias.

E eu, que sempre fora acostumado a viver e a sentir, fosse como fosse, não pude, diante de tamanha  frivolidade, mostrar-me feliz. Fui definhando aos poucos; coxeava muito e alimentava-me consideravelmente menos. Foi então, que numa noite repleta por enxurradas de angústias lamacentas, que cheguei ao fundo do poço. Delirava duma fome que até então desconhecia: a alma havia esgotado seu estoque de esperanças, e diante deste fato aterrador, enlouqueci. Ou quem sabe, estivesse mais são do que nunca, em meio à loucura que se alastrava entre os seres daquela cidade macabra. 

Decidi então que já se fazia o momento de partir para um outro mundo, onde minha única asa fosse suficiente para manter meus pés distantes do chão. Um carro na estrada era tudo o que eu precisava e por ali passavam muitos. Esperei, mas nenhum pareceu ser digno de ter meus restos mortais em suas rodas. Haveria algo no mundo a meu favor? Eis que minutos depois, a resposta surgiu diante dos meus olhos: uma humana seguia distraidamente com sua bicicleta azul, esbanjando um não sei o quê, me fazendo perceber que era ela. Esperei pelo momento certo e fui. Mas não para o céu. 


***

Acordei no que me pareceu ser a casa dela. Tive essa certeza assim que abri os olhos e dei de frente com a dona, que começou a fazer-me caretas e a esticar seus longos dedos carnudos em minha direção, enquanto eu me debatia naquele pequeno cubículo, completamente aterrorizado. Mas a mulher tinha pressa, e enfiou seus dedos pela portinhola, agarrando-me firmemente. O instinto de sobrevivência pulsava descompassado, sem que eu fizesse ideia do porquê, em algum momento, optara desistir da vida que me fora dada. Ela gritou por reforços e um casal de suas crias apareceu, produzindo mais de suas caretas e grunhidos esquisitos. Esperei quieto, para receber duma vez por todas aquilo que merecia; e acredite, nem eu pensei que seria amor. É que eu, erroneamente, havia desistido de tudo. Cedo demais, tolo demais.


***

Sim, eu finalmente, ganhara uma família. Admito que exótica e inesperada, mas ainda sim, era uma família. Uma família de humanos com alma. E se alguns humanos ainda a tinham, seria possível que os tais pombos-sem-alma, também as tivesse, esquecida em alguma parte de si. 

Enquanto eu maquinava um plano para pôr em prática quando que me recuperasse, as crias da humana erguiam-me do chão e simulavam um alçar vôo, que provoca-me um enorme calafrio, seguido por  ondas de fé e esperança. 

Algum metropolitano haveria de me escutar.

2 comentários:

Michelle disse...

Prepare-se: vou me estender...

Puxa-saquismo leve: É o oficial e mais uma vez eu declaro: amo teu jeitinho de escrever... mal tomo a leitura da primeira linha de sua narrativa e já estou sorrindo, a princípio, de ansiedade, e no decorrer da leitura, de satisfação pelo conteúdo lido.

Quanto à narrativa: fluente, bem elaborada e rica em vocabulário, além de transmitir uma crítica à frivolidade humana que contamina os pombos da cidade, tornando-os sem-alma, e ainda aquela mensagem de busca à felicidade, superar os percalços da vida e mimimi.. rs

Me fez pensar: Não é novidade que eu viajo em qualquer coisa, certo? Por esta ser uma narrativa extensa, eu viajei em parcelas, tendo de, várias vezes, voltar na leitura pra retomar o conteúdo perdido em minha viagem.. (rs) Cá está a gema de minhas reflexões: para nós, meros mortais, a felicidade ou é fruto de uma incansável e, por vezes, "tortuosamente longa" busca pela mesma, ou pela elaboração de inúmeras idealizações também impulsionadas pelo desejo de alcançá-la.
Quanto às lamúrias, percalços, obstáculos, impasses (whatever..), ou são objetos de repúdio, dos quais procuramos nos afastar em nossa busca pela felicidade mas que inevitavelmente voltam a aparecer em nosso caminho, desafiando-nos a desistir ou persistir; ou são as correntes que nos prendem às idealizações, limitando-nos a praguejar diante da má sorte de nossas vidas e a imaginar "e se fosse diferente", enfim, resignados ante o karma de nossa existência.

Daí você me fala: isso é gema que se apresente?
Oks, a gema resumida então, sem me importar de ser clichê: a felicidade vai sempre depender do nosso modo de encarar a vida, e que sempre devemos ter esperança... (mimimi², rs)

Com relação ao desfecho, me faz lembrar de um verso de um poema, verso esse que uma amiga boba aí teima em repetir: “a magia da vida é o inesperado.” E é mesmo, não é? =D

Unknown disse...

Parabéns pelo texto [reverência]!

Sem me estender; já não bastasse o homem ser (ir)racional a cidade ajuda a desumanizá-lo.