Com saudades desse marcador? Eu sim, embora este sempre me
seja custoso. Bem, vamos ao causo.
Falso moralismo. Todo mundo já praticou um dia, ainda
pratica ou conhece quem se baseie nisto sempre que abre a boca para falar. É a
maldita roupa que tantos vestem em excesso para se integrar aos demais, são as
ações que tantos fazem não por bondade, mas por necessidade de aliviar qualquer
pesar. Não é caridade. É solidariedade a si mesmo.
Aconteceu numa determinada madrugada, que muito se assemelhara
a tantas outras, banhadas por conversas lamurientas de funcionárias domésticas.
Falavam de como as patroas são desleixadas e preguiçosas. Uma que trabalhava em
casa e mal tinha coragem de tirar o lixo. A outra gostava da roupa muito
bem passada, sem aceitar qualquer “amassadinho”. E assim seguiu a conversa, até
a parte que me coube um manifestar externo bastante audível que, por sorte,
não fora escutado por nossa protagonista.
Ei-la:
(“Note e adote”: D= doméstica A= amiga da doméstica P= patroa – foi mal gente, o vestibular tá me deixando meio louca!)
D: (...) daí eu pedi pra ela me adiantar o salário, porque a minha
família lá do “norte” tá precisada, sabe. E adivinha o que ela me respondeu,
menina? Disse que pagava meu salário pr’eu gastar comigo, e não para ficar
ajudando os outros. Ah, mas eu não aguentei esse desaforo não, disse logo, olha
dona P. eu trabalho pra senhora e faço tudo direitinho, mas o que eu faço
da minha vida fora daqui só diz respeito a mim.
A: Nossa, tá certa, não pode deixar não, imagina, daqui a
pouco vai te dizer como gastar cada centavo do seu salário!
D: Pois é. E ela acha que eu não tenho dívidas, faz questão
de atrasar o pagamento toda vez! A sorte é que eu compro umas coisinhas no cartão
de crédito, então dá pra ir levando. Unha de fome a velha! Teve uma vez que a gente
tava passando em frente à igreja que ela frequenta e o padre tava saindo num
carrão, desses importados, sabe? Daí a P. virou pra mim e falou bem assim, olha
aí pra onde vai o dinheiro que eu dou.
A: Nossa!
D: Se vai ficar reclamando depois, nem sei por que ajuda. Eu
quando dou dinheiro pr’alguém que passa pedindo, não quero saber se ele vai
comprar comida, se vai usar drogas, se vai encher a cara, eu não quero saber. Eu
dei o dinheiro para ele comer, se ele vai ou não fazer isso, não é da minha
conta, minha parte eu fiz.
A: Verdade, verdade.
Bem, verdade por verdade, prefiro as minhas. Não é certo que se dê armas
a um suicida, meios a quem vive de vícios, chances para alternativas desmedidas a quem está desesperado. Não é certo que uma pessoa distribua migalhas de
cidadania, usando a fraqueza de outros em prol de uma decência meramente
imaginada.
Céus, o que é preciso para que um punhado se ponha no lugar de uma
parcela? Ao que parece, nos dias de hoje, só vale a dor que a gente sofre na pele, e que ao atentar no outro, sente reascender a sensação.
Um comentário:
Verdade por verdade, nossas atitudes - não importam com quais intenções - sempre tem suas consequências.
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