“Acordei num pulo, ao notar que ele me encarava com seus olhos vermelhos e aspecto pálido, ao mesmo tempo em que balançava seu relógio de bolso e gritava desesperadamente que não havia tempo. Argh, maldito coelho!, pensei eu, o que há agora? Vi meu corpo sendo envolto por vultos de incerteza, medo e desilusão - que sentimentos melhores do que estes para fazer o trabalho sujo? Fechei os olhos e esperei pela aterrissagem.
Recordava-me bem da última visita que fizera à mim, e não posso afirmar que estive ansiosa por outra. Ser conduzida até ali, ao âmago do que sou, só poderia significar que algo de muito errado estava acontecendo.
Não houve tempo para cerimônias; o caos reinava em mim: uma tempestade de areia acontecia naquele exato momento. Vi sonhos sendo levados, desejos chocando-se com indecisões, amores despedaçados, confianças que se esvaíam. Vi também certo alguém em meio àquela desordem, acenando com força para que o seguisse. Mas por que você?, pensei eu, estupefata. E por que diabos, sempre venho parar no deserto? Ao que este, sem cerimônia alguma, pegou-me pelo braço e arrastou-me até uma barreira de esperança.
Redemoinhos e grandes quantidades de massa investiam contra nós, tal qual uma muralha em movimento, fazendo estremecer e fragmentar as bordas de nossa pequena barreira.
- Você precisa de certezas!, gritou ele com a voz esganiçada.
- Mas é lógico que eu preciso! Acha que sou idiota?
A muralha investe com mais força e um grito de extremo pavor é externizado. Sou eu quem grita. Um grito de pavor pelo que há em mim. Ele segura-me pelos ombros e tenta novamente:
- Essa tempestade, essa bagunça toda, céus, isto aqui está um caos! Você foi trazida aqui por um motivo. Você precisa de certezas, - interrompo-o aos gritos.
- Você já disse isso!
- Não me interrompa! - sua voz era firme, enquanto que seus olhos o contradiziam - Você precisa de certezas. Isso não vai terminar, ou pelo menos não de um jeito agradável, se você não tiver alguma base estabelecida. Esse caos será você por toda a sua vida, se continuar se negando aos alicerces.
- Mas eu não as tenho agora! Merda, não se obtém esse tipo de coisa assim, em questão de segundos!
- Pensasse nisso antes de desfazer-se de tudo! Antes de desacreditar de tudo aquilo que desenvolveu durante anos! Antes de deixar a si própria sem um chão onde pisar! À minha volta as coisas pareciam piorar, portanto evoluíam, ao passo que eu, continuava a mesma: sem rumo.
- Ei, vamos lá, você consegue, disse-me ele com afeto. Concentre-se.
Foi o que fiz. Pensei em certezas e ao meu redor, a desordem cresceu. Fui repreendida como quem rouba num jogo de tabuleiro:
- Não essas certezas! Você entendeu o que eu quis dizer! Disse-me como quem se apieda, segurando uma de minhas mãos, com esperança.
Procurei em minha mente as melhores lembranças do meu mundo, vi recordações que migraram outrora reforçando nossa barreira, trabalhando pela plenitude das minhas decisões. Também pude sentir. Sua mão me firmando em terra, quando tudo o mais explodia acima de nossas cabeças, meus sentimentos exauridos, mas em alívio, meus pertences se restabelecendo. Como numa genuína precipitação pós levante de poeira, uma chuva colorida se derramou sobre nós. Fitei seu olhar com carinho, agradecendo-lhe sem palavras. Eu finalmente voltaria para casa.
Deitada, senti brotar em meus pensamentos respostas embrulhadas como recompensas por todo o esforço bem sucedido. Fora ele, porque jamais outro alguém pareceu fazer-me incitar tanto a razão. Num deserto, porque é preciso incluir como rota também o que causa repulsa dentro da gente, onde parece haver apenas o nada. Um punhado de insignificâncias não o são verdadeiramente.
E, verdadeiramente, as soluções sempre aparecem dentro de nós mesmos.”
Ei, se liga! A intertextualidade tá aqui!

Um comentário:
Um retrato de uma mente confusa?
A concretização das incertezas?
Ou simplesmente um texto inventando?
Acho que tudo isso e mais muita coisa!
Gostei da narrativa senhorita!
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