12 minutos
Ele a olhava com nojo, enquanto ela o mirava aparentando pedir clemência. Sentia vontade de cuspir todas aquelas verdades entaladas em sua garganta, de chutar toda aquela realidade e afogar aqueles últimos 12 minutos. Afogá-los até que não tivessem mais capacidade de invadi-lo e o fizesse esquecer-se da existência asquerosa daquela mulher.
Sentia nojo de si mesmo. Sentia vergonha do que ela havia representado para ele. Era mesmo um idiota – sim um completo idiota –, por ter dado tanto valor a uma meretriz. A uma mulher da vida, uma qualquer, capaz de relacionar-se com o mais desprezível dos homens.
Como que desperto de um transe, lembra-se de que ela ainda está lá, que ocupa o mesmo espaço que ele. A ira toma-o mais uma vez. Em sua mente, flashes surgiam de não sei onde e escorrem por seus olhos vermelhos de tanto chorar. Sim, ele era um completo idiota.
- Uma mulher da vida...
- Como?
- Uma mulher da vida foi o que eu disse... Uma qualquer. É o que você é.
Ela não pôde responder. Sequer cogitou retrucar aquele insulto. A mulher mal conseguia olhá-lo nos olhos. Fitava-o sempre de canto, como se temesse que notasse que o espiava, enquanto o homem ficava cada vez mais inquieto com a indiferença fingida da intitulada meretriz.
- Droga! Não vai dizer nada?
- Não preciso.
- Não preciso.
- O que? O que pensas mulher? Encontro-lhe com outro, e vem dizer que não precisa contar-me nada? Vai pro o inferno vadia!
Saiu batendo a porta daquele quarto de hotel de quinta categoria, não sabendo nem o porquê de ter permanecido ali por tanto tempo.
Chovia forte naquela noite e as gotas pareciam invadir sua pele atingindo diretamente seu coração. Tudo doía: seus olhos, seus braços, suas mãos... Mas nada se comparava ao ferimento que ela havia aberto nele. Ela havia ferido seu orgulho, seu ego.
***
Ainda podia vê-lo virando à esquina quando resolveu afastar-se da janela. Não queria pensar no que havia acontecido minutos atrás. Levara tanto tempo para convencê-lo de que nasceria de novo só para conhecê-lo mais cedo, que depois dele, todos os outros apagaram-se de sua mente de tal forma que ele parecia ter sido o único... Tanto tempo...
- Tantos minutos de tantos dias... E em minutos, tudo vai abaixo! Não sei por que ainda me iludo.
Abriu sua garrafa de champanhe e engoliu em grandes goles aquele liquido sem sentir qualquer sensação. Apenas engoliu, sem o menor prazer.
“Vai ver – pensou a mulher da vida –, no fim das contas as coisas sejam mesmo assim; a gente sempre volta a ser o que era. Vai ver a natureza de um ser não mude jamais... Vai ver é tudo fingimento.”
Acabou por adormecer naquele sofá velho, que mais cheirava a comida chinesa.
2 comentários:
Parabéns pelo conto, gostei dele!
Mas acho que a "mulher da vida" não tem razão, nossas escolhas é que definem o que somos, ela escolheu ser o que é, e se não escolher mudar, não mudará.
Potter...
Concordo com você em partes: as pessoas escolhem sim ser o que são, porém, não é fácil abrir mão de de hábitos 'culturais', pois estes se tornam parte do cotidiano da pessoa. É preciso força e muita coragem para renegar a própria natureza dita ruim, e transformar-se numa pessoa de bem. Ainda tenho alguns trechinhos para postar fique atento!
Obrigada por comentar!
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