Sim, somos todos igualmente mesquinhos. Eu, sou alheio aos acontecimentos e ao status social de toda essa gente, e só as idolatro e as bendigo até alcançar meus objetivos; depois vou embora a pensar no quanto são mesquinhas - mesmo as que me cedem algum trocado.
Já era hora de ir implorar alguns centavos, aliás, e eu já deveria ter começado há muito. Mergulho no meio da multidão, caminhando entre os transeuntes que em protesto levam com delicadeza as mãos ao nariz. O motorista do ônibus abre as portas e eu subo, enfiando meu orgulho no meio de todo aquele aperto, começando mais uma vez a esmolar:
Senhores passageiros, me desculpem por atrapalhar a viagem de vocês, mas não tenho outra opção senão esta para tentar sobreviver. Sou menor de idade, órfão de mãe morta e pai vivo, e não coloco nada no estômago há oito dias. Não consigo arrumar um emprego para me alimentar e durmo nas ruas, dentro de uma caixa de papelão.
Eu sei, senhores passageiros, que os senhores escutam isso a toda hora, e que neste exato momento devem estar se perguntando se eu estou aqui pedindo dinheiro para saciar mesmo a minha fome. Senhores passageiros, eu estaria mentindo se dissesse que estou aqui esmolando apenas com esta finalidade; tenho também, uma colega com que divido a calçada e uma irmã, que está a beira da morte, e anseio por vê-las e dividir com elas o que me for cedido.
Não estou aqui para forçar-lhes a nada, nem para atribuir a vocês a culpa pela minha situação. Se algum de vocês puder ceder algum alimento ou dinheiro, lhes serei muitíssimo grato. Acreditem, senhores passageiros, eu não estaria aqui me humilhando dessa maneira, se a causa não fosse nobre, e a alternativa não fosse a última. Muito obrigado pela atenção e que vocês possam chegar bem aos seus destinos.
Pego algumas moedas dos pouco comovidos, e ganho um lanche de uma senhorinha simpática. A ela procuro mostrar meu melhor sorriso. Desço do ônibus e pego outro à caminho de 'casa', e durante o percurso, repito o processo.
Desço do ônibus com cinco reais e um sanduíche já no finalzinho, e sigo rumo à minha calçada, o Jarbas me esperando, todo perturbado:
— Qualé jão, tu disse que ia tá aqui há uma hora atrás! Tá virando moda isso mer'mão?
— O ônibus atrasou. — pego os cinco reais do bolso, feliz em saber que ainda vai sobrar um conto pro pãozinho do dia seguinte. O cara me passa o bagulho e vai saindo — Ô Jarbas, e o meu troco hein? — O nóia volta que nem um foguete, já puto da vida comigo.
— Tá de brincadeira mer'mão? — levo um sacode daqueles enquanto o mano Jarbas fala com aquele bafo dos diabos, que ele só deve manter pra deixar a gente grogue — tô aqui nessa porra há mais de uma hora e tu ainda me pede troco? Acho melhor tu ficar esperto comigo moleque; num tô nessa vida a passeio não Jão. — E lá se vai o mano Jarbas, todo apressado.
Sento no meu papelão ao lado de outros dois já vazios, sentido a dor que sempre vem quando penso nelas duas. A colega de calçada, morrendo atropelada e, dias depois, minha irmã, sucumbindo à doença que sabe lá Deus o que era. Tiro do bolso da calça a agulha já nas últimas e começo a preparar minha visita às duas companheiras. Não demora muito e já está tudo pronto para a minha viagem momentânea.
Estendo o braço flexionando a mão enquanto espero que a Heroína venha me levar de encontro com minha irmã. Ela prometeu que na próxima, seria a vez de ver a Amanda. Não demorou muito e eu estava lá, na nossa antiga casa, a Amandinha já adoentada, sorrido do sofá.
— Mana! Ah cara, que saudades! — beijo-lhe demoradamente a face.
— Você demorou! Fiquei com medo, com muito medo! — as lágrimas brotam em seus olhinhos.
— Eu sei, eu sei, é que não consegui arrumar dinheiro. Mas eu tô aqui num tô? Olha eu aqui! — levanto a abro os braços enfatizando o que já havia dito. E quando eu penso que a Herô não podia se superar, vejo a Carlinha chegando com dois pratos de sopa, toda sorridente.
— Tem espaço pra mais uma aí? — ela senta do meu lado e sinto minhas bochechas queimarem.
— Fiquem tranquilas garotas, tem Neco pra todo mundo! — abraço as duas ao mesmo tempo, sentindo uma alegria que só quem tem a herô correndo nas veias consegue explicar. Tomo a sopa da Carlinha, sentindo a barriga aquecer no mesmo instante. Daí a Herô avisa que já é hora de ir embora, e eu sei que com ela não se discute. Me despeço das meninas, com a promessa de voltar o mais rápido possível.
— Por favor mano, fica! Você não precisa ir, a gente cuida de você! — eu vejo ela soluçar, tendo espasmos por todo o corpo.
— Você vai ver que dessa vez eu não me demoro Amanda, promessa! — levanto a mão, em voto solene.
Não deu tempo de ver se ela havia entendido, porque eu já estava de volta. Abri os olhos desejando não tê-lo feito. Mas precisava, eu havia prometido.
Saí pelas ruas.
Eu precisava de mais.
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