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Aqui vão algumas observações iniciais sobre o nosso amigo: fedia a latinha de cerveja depois de amassada e a muitos dias sem um bom banho.
Referente ao respectivo post: este é mesquinho e um tanto hostil. Desculpem-me por revelar mais de minhas qualidades ruins. Mas são sinceras, isso eu garanto.
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Antes de começar, vamos a um detalhe: Normalmente quando vou para o curso, opto por esperar o micro-ônibus em um ponto antes da avenida daqui do bairro, pois assim tenho mais chances de ir sentada, o que costuma acontecer com frequencia. Mero detalhe.
Bem, voltemos ao meu relato: no "trajeto da vez", estava partindo de casa e estava atrasada. O ponto antecessor ao da avenida deveria ter umas cinco pessoas coisa que não é comum por aqui num horário matutino. O busão estava atrasado. Quando este chega, eis que uma senhora não tão idosa, parte veículo a dentro muitíssimo apressada empurrando a todos. Subo em seguida. Vejo que há apenas um assento e deduzo que a senhora que girou a catraca antes vá sentar-se ali. Praguejo internamente.
Algo estranho acontece: a velha não senta. Imagino então que a mulher vá saltar logo e cogito sentar-me ali. Graças aos céus que não o fiz! Ali mesmo, encostado à janela, acompanhado pelo vácuo de um assento sem bunda e uma catinga infernal, dormia um mendigo que mantinha o rosto encoberto por uma camiseta - não sei bem se para tornar o sono particular ou se para diminuir seu próprio constrangimento -, e Deus, como fedia! Logo o mau-cheiro espalha-se por todo aquele pequeno ambiente e meu nariz começa a coçar. Uma moça simpática pergunta-me se eu pretendo me sentar ali e eu olho sugestivamente acusatória dela para o mendigo dizendo-lhe que não. Ela entende meu aviso como uma 'permissão' para que então possa tomar por seu aquele assento. Senta e ali fica, causando em mim espanto e inquietação. Mas o feito dura pouco; a pobre mulher, que cá entre nós, deveria ter o olfato um tanto quanto imperfeito, faz juízo do mesmo, abandonando enfim - e para o alívio de minhas agonias -, aquele encosto. Que fique claro, que me refiro ao assento.
Fiquei a pensar: "onde será que esse homem 'mora'? Será que ele não tem ninguém nessa vida? Não tem ninguém que lhe dê uma toalha, um sabonete, roupas limpas?Eu lhe cederia estes itens."
E aí a consciência falou alto: cederia esses bens, mas e o banheiro? "Eu cederia o banheiro da minha própria casa para um desconhecido que possivelmente a assaltaria mais tarde? Que talvez resolvesse me violentar?" Não. E isso o que é? Hipocrisia ou instinto de sobrevivência? Nenhum? Ambos?
Meu pai vive dizendo que nessa vida, a gente deve estar sempre atento, buscar a malícia nos olhos do outro. Um olho aberto e o outro fechado. Um pé lá e outro cá. É o que ele diz. E se você, caro leitor, acredita que seria capaz de ceder o banheiro da sua casa para que este mendigo pudesse enfim, tratar de suas necessidades básicas, parabéns, você tem a minha admiração.
Hoje em dia, não é fácil acreditar nos outros. A desconfiança é tamanha - ou quem sabe a paranoia -, que boa vontade é constantemente vista com maus olhos. "Aí tem coisa", eles dizem. O jornalista grita, "mas é claro, é claro que as pessoas tem medo dessa gente, isso é normal!" O que é normal senhor jornalista? Desigualdade social é normal? Preconceito é normal? Por favor, entregue o seu diploma, você não o merece. Corriqueiro não quer dizer normal.
Tem gente dormindo na rua, tem gente que não toma banho todo o dia, tem gente que não se alimenta frequentemente, tem gente que não tem 'uma vida' porque o outro pegou a parte que lhe cabia. O outro pegou demais por ter a mais.
Minha mãe disse certa vez que mendigo é um tipo sem-vergonha. Disse que tem albergue e que eles não ficam ali porque não aceitam as regras. Disse mais: contou que muitos tem até casa e família, mas resolveram ser andarilhos para morar cada dia em um lugar. Onde ela trabalha tem bastante pedinte e ela bate um papo com eles.
Meu mundo caiu quando ouvi aquilo. Vacilei, fiquei na dúvida. Disse para mim mesma que toda a regra tem sua exceção. E eu acredito nisso. Assim como acredito que o ser humano possa evoluir sem deixar seus traços de beneficência para trás, sem abandonar o coração de criança.
Falo sobre isso e aquilo, sobre ceder e ser solidário, mas sei que mesmo assim não cederia o banheiro da minha casa.
E eu não sei como definir isso. Alguém aí se habilita?

2 comentários:
Finalmente, o mendigo...
"Corriqueiro não é normal"; muito bom lembrar. E essa situação (se deparar com mendigos em um trajeto habitual) é tão corriqueira que já passa despercebida pelos olhos ou arrogantes, ou resignados, ou ainda inquietos, que desviam o olhar, buscando uma paisagem feliz para poder acreditar no mundo, ter esperança. Eu busco uma paisagem feliz, mas a realidade teima em tingir a imagem de preto e branco.
Não há base para julgamento - você nãos sabe nada a respeito daquele indivíduo. Não dá pra sentir pena ou condená-lo, porque você não sabe o que o levou até ali, até aquele banco, ou aquela esquina ou aquele beco. A única atitude segura a ser tomada a respeito é refletir - eu também não cederia o banheiro lá de casa.
E eu passo. Compreender certas coisas já é demasiado difícil. Definir então...
PS: Parabéns por mais uma profunda dissertação. Não deixo de ficar orgulhosa de ti! Quem diria que um texto assim tão fluente ficou tantos dias 'de molho'... valeu a pena, ficou muito bom.
13.666. É assim que a prefeitura vê os mendigos (em 2010 era esse o número de mendigos constatados na cidade).
São 13.666 pessoas para abrigar durante a noite, são 13.666 pessoas sem onde se limpar, são 13.666 bocas para alimentar, e tendo que fazer tudo isso sem um teto, sem um banheiro e sem uma cozinha.
Quantos deles estão ali por opção? Quantos não? Acho que nunca vamos saber ao certo. O fato maior aqui, ao meu ver, é a desigualdade social provocado pelo capitalismo consumista. Enfim, podemos ser todos pessoas, mas não por isso que somos vistos. Cada olhar vê o outro de acordo com seus valores. Veja a vida ou reveja seus valores.
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