O louco - Confidências de Lotação


Sobre a crônica:  como eu já havia dito aqui, a crônica relata fatos que acontecem durante meus trajetos semanais em lotações. Demorei muito para conseguir concluir este texto e ainda não estou satisfeita com o mesmo. Porque publiquei então? Por que  isso é o máximo que consigo fazer. É difícil finalizar algo que eu mesma não concluí em minha mente. 
Publiquei. Por que se não, 'o louco' ia acabar sendo eu. Boa leitura. 
***
Quarta-feira passada (mais que passada que pão velho), período matutino, horário de pico. Pego a lotação que tem como destino o Largo São Francisco, embora eu vá saltar bem antes do ponto final. Por um milagre dos céus, consigo um assento. Catraca a frente está um homem com a coerência mental já em frangalhos. Vamos tornar a coisa mais casual atribuindo-lhe um nome: Matias (para mim, ele tinha cara de Matias).

Seu Matias tinha a pele escura, era magro e de olheiras tão profundas que até eu conseguia enxergar. Devia beirar os quarenta. O homem estava num daqueles assentos que o passageiro viaja de costas, e de quando em quando puxava assunto com a gestante a sua frente - próxima a porta de entrada -, que não se mexia; não sei bem se por medo ou por pura indiferença. O doido, cansado de tentar interagir com a futura mamãe, sentou e deixou-se levar por seus devaneios. 

Seu Matias estava perturbado: dizia para a coisa sair, para ir embora e não voltar mais. Rezava logo em seguida. Repetia o processo no mínimo duas vezes. 
A mulher de pé ao meu lado, notando o meu interesse por seu Matias, quis encontrar meu olhar. Quando o fez, manifestou certo ar de deboche em sua expressão. Ela nada disse, mas mesmo assim eu ouvi as palavras saírem  de seus lábios num pulo, como se almejasse botá-las para fora a tempos. "Esse aí é doidinho", foi o que ela disse. Retribuí arregalando meus dois olhos, acrescentando um par de sobrancelhas bem arqueadas e finalizando a expressão com ambos os lábios levemente pressionados (entenda minha expressão como quiser,  hoje estou aqui para falar do seu Matias e não dos meus tiques nervosos). Desviei logo o olhar, pois meu pré-conceito dizia que a mulher era daquelas que gostava de falar mal dos outros, e eu estava mais interessada no homem sentado mais a frente, que a toda hora me assustava e surpreendia.

E o seu Matias não parava: tirou da sua bolsa de pano encardida um saco plástico branco, e começou a enchê-lo. Por conta de algum furinho, a sacola não armazenou o ar e seu Matias fez cara de choro. Pegou outro saco, dessa vez amarelo. Encheu-o da mesma forma e depois aspirou todo o ar de uma só vez. Fez que ia vomitar. Abanou-se. Pôs a cara para fora do ônibus e voltou logo em seguida. Abanou-se novamente. Benzeu-se e rezou mais uma vez. 

Com cara de desespero e fugindo ao padrão que eu lhe havia atribuído, seu Matias põe a sacola na cabeça e aspira o ar com rapidez, sufocando. Faço menção de levantar, mas seu Matias é esperto e tira logo a sacola da cabeça. Depois é a vez do lenço de papel. Sufoca igualmente. A mulher debochada procura meu olhar e eu a ignoro, enquanto seu Matias continua a tagarelar sabe-se lá com quem.

Sabe aquela pegadinha besta da televisão, onde uma pessoa qualquer fica parada no meio da rua olhando para cima, fazendo com que inúmeros curiosos parem para olhar também? Pois é, comigo foi assim. A diferença é que eu olhava para o doido varrido, assim como boa parte das pessoas próximas a mim começaram a fazer. Mas acho que o seu Matias não ficou constrangido não...acho né.

Religiosos diriam que o pobre estava possuído, que fizera um pacto com o demônio e que como castigo, a besta o enlouquecera completamente.
Minha mãe, se estivesse comigo diria que o que seu Matias tinha era um belo dum encosto.
Mas pra falar a verdade, se fosse para especular, eu diria que o seu Matias fora muito religioso antes de pirar na batatinha, sabe? Em vinte minutos de viagem ele já havia rezado mais do que eu rezo em um dia.

Muitas coisas passaram pela minha cabeça durante o percurso:
"Será que o seu Matias não tem família? Eu nunca deixaria um parente meu de problemas mentais sair por aí, birutando pela vida. Será que o seu Matias fugiu de casa e ninguém viu?
Bom, ele está bem vestido e tem até uma bolsa-sacola cheia de coisas...acho que devia ser proibido loucos andarem de ônibus. Mas desde quando ser doido é crime? O seu Matias deve ter tido uma vida antes disso; vai ver foi por isso que endoideceu. Por que ninguém interna esse coitado? Alias, como será que se faz para mandar internar desconhecidos em clínicas psiquiátricas públicas? Será que eles cuidam bem dos doidinhos lá? O que será que vai acontecer com ele? Isso é da minha conta? É da conta de quem, afinal?"

Inevitavelmente, me vem a mente uma vizinha que mora em uma rua atrás da minha. 
Ela era uma boa pessoa antes de ficar biruta. Na verdade ainda é; o negócio é que ela não fala mais coisa com coisa e vive vagando por aí, com roupas coloridas, xingando e gritando pra coisa sair. O que será que essas pessoas perturbadas vêem, afinal? Talvez seja síndrome do pânico.
O fato é que a mulher tem três filhos e um 'marido', mas ninguém cuida da coitada, ninguém a leva para se tratar. Minha mãe se solidariza, mas não o suficiente para mandar internar. Diz que não é da nossa conta, que não devemos nos meter. Eu aquiesço. 

Pergunto outra vez: é da conta de quem, afinal?
Dos estudantes de psicologia, que vêem as pessoas com problemas mentais como uma regra a ser seguida, baseando-se na opinião de terceiros? Da sociedade que vai nos estragando dia após dia? Dos parentes que devem sempre estar presente na vida de seus familiares?Dos vizinhos levianos? De todos? 
E o seu Matias gente, é da conta de quem? De Deus? Da coisa que não vai embora? Da minha conta?
Está difícil finalizar esse texto. Já escrevi tudo isso e não sei como concluir. Estou aqui matutando, matutando e matutando. 

Acho que vou pedir pro pessoal daqui de casa cuidar direitinho de mim quando eu endoidecer na vida. Eu sei que eles vão cuidar, mas vale a pena reforçar o pedido.  Ainda deve demorar muito para acontecer, mas acho que uma hora, finalmente acontece. Seria bem típico de Bia pirar na batatinha. Histérica e exagerada do jeito que sou, vou precisar de muita atenção. 
É bom saber que tenho pessoas que me amam e que irão se importar comigo. 

Espero que amem e se importem o suficiente para lidar com a situação. Que não desistam de mim, que não me larguem numa clínica e me deixem à mercê de remédios controlados. Que não me deixem sufocar com sacos plásticos, chorar sozinha com medo da coisa ou me auto-flagelar.
Porque pra boa parte das pessoas, os loucos são só mais um dos muitos outros que elas verão durante o dia. Não são gente, não são unicos.

Para a sociedade em geral, loucos são apenas isso: estatística.




2 comentários:

Michelle disse...

Sabe-se lá o que leva o homem a insanidade, e o que se passou na vida do seu Matias, e o que se passa em sua mente agora.
Além de abordar um tema delicado como a loucura, seu texto também abre espaço para uma realidade veemente em nossa sociedade - o descaso, a indiferença.
Quanto à sua pergunta - "É da conta de quem?" -, pode-se dizer que é da nossa conta sim, pois interage no nosso cotidiano, na bendita sociedade, de uma forma ou de outra, nos atinge. A questão é: o que se pode fazer? (e essa indagação pode ser tanto um martírio para os que se sentem impotentes, quanto uma desculpa para os que realmente não ligam).
Enfim, tá difícil concluir esse comentário, então só vou ressaltar que o texto ficou ótimo - apesar de não tê-la agradado tanto assim... ficou mesmo muito bom!

Unknown disse...

Altruísmo: s.m. Amor desinteressado ao próximo; abnegação; filantropia. (O contr. de egoísmo.)

Acho que é isso que falta na nossa sociedade: altruísmo. No momento fico pensando no que a mulher que estava ao seu lado pensou sobre o seu 'Matias'. Imagino que o mesmo que todos os outros, a regra, exceto você, a exceção.

Ótimo texto e novamente parabenizo seu altruísmo.